O mundo contemporâneo é sustentado por fatos, experiências, interpretações que comprovam logicamente a realidade. Para um grande número de fenômenos há explicações que são aceitas pelo grande público como verdadeiras, e até certo ponto, inquestionáveis pela sua aparente obviedade. No entanto, é também fato que, tempos atrás a mesma realidade não era explicada da mesma forma como era explicada hoje, e nem por isso, deixou de ser considerada verdadeira na época. Questões mais do que sabidas, como o movimento heliocêntrico terrestre em torno do sol ou a esfericidade terrestre, são exaustivamente reapresentados como representações dos “enganos” de nossos antepassados, fruto dos limitados recursos tecnológicos para tais análises. Para tanto é de se questionar também se algumas das ditas verdades de hoje não sofreriam o mesmo “engano” de suas antecessoras.
Afinal, o que determinaria o que é verdade? Quão fácil seria dizer que é a ciência. Deixe-me explicar. Sim, é a ciência quem se propõe a buscar a verdade nos fenômenos, estabelecer as teorias e os princípios que dão luz à escuridão do senso comum, do imaginário, do místico, através da razão, da lógica, do questionamento, de sua metodologia. A ciência é uma legitimação da verdade. Oras, muitas são as vezes em que questionamos algo, e quando nos dizem que foi “cientificamente comprovado”, simplesmente não temos mais argumentos para combater idéia. Não estou me objetando a isso. O que quero dizer é que não cabe somente à ciência a determinação da verdade, mas sim a um conjunto de fatores que extrapolam o campo da ciência (pelo menos é o que eu acho, afinal, que sou eu para falar o que é a verdade?)Para a sociedade aquém dos meios acadêmicos científicos, as descobertas são somente relatadas a eles (sociedade), com poucos elementos que provem a veracidade delas, ou possuem uma lógica além de sua compreensão. Este é um ponto bastante interessante que eu quero chegar: numa suposição, uma pessoa leiga que lê ou vê a notícia de uma descoberta que contradiz tudo que foi dito antes sobre algo, a ela cabe só aceitar ou não a nova teoria . É uma questão de fé, afinal. O fato de ter sido uma pesquisa científica – que possui todo um processo metodológico para que se tenha o máximo de imparcialidade e objetividade – e ter saído na imprensa, a pessoa se convence de que aquilo é uma verdade; assim como os que duvidam são ridicularizados. Outro ponto a se dizer é que a verdade que só era sabida nos meios científicos precisa ser conhecida pelo público, para se tornar uma verdade mais verdadeira (desculpem-me a redundância). Ou seja, não adianta ter uma verdade científica sem o conhecimento do grande público, pois para eles a verdade anterior ainda prevaleceria. É como a questão da fórmula da água. Li há algum tempo atrás que a água por alguns attosegundos (1 attosegundo corresponde a 1 trilhonésimo de segundo) H2O não é mais H2O, e sim H1,5O! Suspeito que poucas pessoas saibam desse fato, e o quanto pode mudar toda química e outras ciências. Enfim, a verdade é que a água continua sendo H2O para a grande maioria da humanidade, e durante a maior parte do tempo.
Porém não é só no meio leigo que a ciência é movida pela fé. Nos meios científicos também. O cientista acredita fielmente em uma hipótese e se esforça para poder confirma-la. Seu esforço pode, algumas vezes, superar a sua capacidade de discernimento, e com isso, tirar conclusões errôneas, mas que legitimam a sua hipótese. É o que Marcelo Gleiser chamou de “vontade de acreditar”. Nas ciências humanas muito acontece de se acreditar em uma teoria, e duvidar de uma outra sobre uma mesma questão – “a pessoa se convence de que aquilo é uma verdade”. A verdade teórico-científica é escolhida em reflexo da “verdade pessoal” – aqui como todo um conjunto de fatores que interferem na vida humana: genética, meio sócio-cultural, momento que se está passando, etc. Ou seja, este acadêmico simplesmente acredita na teoria escolhida, assim como qualquer pessoa acredita em algo exposto a este. Diante disso, poderia se dizer que haveria, então, várias verdades, já que cada um acredita no que quer acreditar. Quem já não soube de pessoas que acreditam, já viram, e até já foram abduzidos por seres extraterrestres? (fora os outros seres bizarros) Quantas são as teorias de dietas, que os médicos não comprovam a sua eficácia, e que no entanto, insistem em permanecer na cultura do povo? (afinal, se não funcionasse, ela não existiria. Será?) Por que diabos a minha vó (podendo se estender em outros casos para a mãe, tia, vizinha, conhecida da avó…) teima em me dar chás e chás ou remédios caseiros para qualquer dorzinha que eu sinto? E a homeopatia? E as várias igrejas que se espalham mais e mais, derivadas de um mesmo deus? E as religiões?
É de se discutir também o papel da ciência no estudo de verdades que não são científicas. O que se pode ver em alguns casos é um interesse maior sobre essas não verdades científicas a partir do momento em que estas passam a ter grande influência na sociedade, e assim também, afetar, por exemplo, toda uma rede de conexões de mercado que se ligam à ciência. Como exemplo posso citar a homeopatia que vem crescendo no mundo inteiro, e que somente nos últimos tempos é que se vêm fazendo pesquisas a respeito dela. No entanto, essas pesquisas ainda não conseguem explicar a capacidade curadora que já funcionou em tantas pessoas, e divulgam (imprensa) como sendo algo logicamente impossível, e sem explicação racional para que tenha tais efeitos. Com uma imaginação mais fértil, poderia se elaborar uma trama no qual numa divulgação dessas pesquisas, é esperado que a homeopatia possa estagnar ou crescer mais lentamente, para que as pessoas não se arrisquem sua saúde em algo “não cientificamente comprovado”, e consultem um médico para que comprem os remédios “testados e aprovados” necessários para o seu bem-estar: defesa de mercado!No entanto, a idéia de uma ciência movida por interesses chega a ser absurda no senso comum, pois a imagem que ela passa é o da neutralidade, da objetividade, da busca pela verdade. Porém, na história podemos verificar o lado negro da ciência. A ciência várias vezes já deu amostras de seu preconceito, principalmente no que se refere à cor da pele dos seres humanos: brancos geneticamente superiores às outras “raças” humanas. A ciência a serviço de interesses para a validação de um preconceito como uma justificativa científica; o que podemos dizer, a verdade moldada por interesses. Acreditar que hoje em dia, com o progresso da humanidade, isso não acontece mais, seria ingenuidade. Não digo que a ciência tenha o mesmo âmbito de interesse discriminatório como o descrito acima, mas em alguns casos ela é movida a partir de interesses de outros, que financiam as pesquisas para determinados assuntos a fim de obterem resultados que gerem lucros. Essas pesquisas em sua maioria são feitas com métodos poucos rigorosos, e a sua divulgação de resultados é de acordo com os interesses dos donos da pesquisa. Para o grande público que for ver esta esdrúxula pesquisa, passa a ser uma verdade para este.
Cabe à imprensa a divulgação da verdade científica. Como dito anteriormente, a verdade científica de nada vale se esta não chegar ao conhecimento de todos. O meio em que se pode concretizar isso são os meios de comunicação. São eles os responsáveis pela difusão das descobertas científicas. Mas também são eles que divulgam as esdrúxulas pesquisas feitas só para satisfazer um mercado ou algum outro interesse. O público tende a acreditar que o que está documentado é a verdade. Então grande parte do que a imprensa diz, o público em geral aceita sem questionar. A credulidade nos meios de comunicação é tão grande quanto nas ciências. Fatos e fenômenos podem ser considerados verdades com uma simples divulgação deles através dos meios de comunicação, não importando a época que isso aconteça. Exemplo: se em 1938 a população de Nova Jersey, nos EUA, se apavorou com as transmissões do locutor que dizia que a Terra estava sendo invadida por marcianos, hoje em dia o que se tem são as dramáticas e incríveis histórias que circulam pelos e-mails. Histórias essas que vão desde uma pessoa que morreu em seu trabalho e ninguém percebeu a sua falta, de mortes causadas por causa de um limão na cerveja, até gatinhos criados em garrafas e reservas de viagens para a Lua. Podem parecer absurdas todas esses “causos”, mas são por muitos consideradas verdades, que realmente aconteceram; caso contrário, por que repassariam a história para toda a sua lista de amigos? Talvez uma mente doentia que se regozija com a idéia de imaginar o outro num acesso de raiva por ter lido algo tão absurdo? Não cabe aqui analisar essa hipótese. A internet talvez não seja o melhor lugar para se procurar verdades, visto sua dinâmica de informações, em constante atualização, sem muitas vezes se preocupar em comprovar a veracidade dos fatos. Vejamos nesse caso, a imprensa escrita ou a própria televisão. Apesar de uma maior credibilidade em suas divulgações com relação à internet, mesmo nesses meios o que se noticia ou se divulga não merece essa sua tamanha credibilidade do público em geral. Casos de manipulação de informações são freqüentes para trazer ao público somente o que interessa à classe dominante; meias verdades, ocultamento de fatos, e até dissimulação são utilizados para esse fim. Mais uma vez, a verdade, se é que pode se chamar de verdade, produzida a partir de interesses. Os meios de comunicação como legitimação dos fatos, sejam eles quaisquer que sejam.
O interesse parece estar bastante presente na determinação da verdade, não só nas ciências e comunicações, mas também no contar da história da humanidade. Como saber que aquilo que nos contam da história dos homens é real ou não? Até que ponto é a história em si, ou a interpretação do autor? O fato é que há várias versões de se contar a história – pode-se fazer uma analogia aos meios de comunicação que divulgam o que lhe interessam – e cada um conta-a da sua maneira, na sua perspectiva, de acordo com o seu interesse. Pode-se passar diferentes enfoques e detalhes para manipular a sociedade.
A ciência como se sabe se propõe a explicar os fenômenos do mundo com uma certa lógica, e um método rigoroso se torna extremamente importante para tal objetivo. No entanto, é de se questionar, se os cientistas sendo seres humanos, que dessa forma possuem suas influências culturais e seus valores internos, poderiam fazer uma ciência totalmente ausente de interesses? Já que é isso que a ciência prega e o que a sociedade em geral acredita, numa ciência imparcial. Além disso, há a questão da fé, já dito no começo, que, diferentemente da religião, tem a logicidade e a racionalidade ao seu lado. No entanto, acho que suas diferenças acabam por ai. Do mesmo modo que a religião explicava o movimento dos astros e outros fenômenos físicos, a ciência também o faz com explicações que parecem ser mais lógicas, mas que a mim só resta acreditar já que a minha situação não me permite sair da Terra e observar de fato o movimento dos astros. O fato de não acreditar em razões místicas para explicar outros fenômenos vai depender da minha experiência interna: posso ou não acreditar na ciência. No entanto, o duvidar da ciência da realidade não é tão simples como parece. Questionar fatos inegáveis e nitidamente óbvios da ciência é como assinar o atestado de internamento num hospital psiquiátrico segurança máxima (preservação da ciência?). Pode-se comparar à inquisição da igreja católica com relação aos hereges. Talvez menos pior seria se tivesse alguém mais com quem partilhar a minha “loucura”. Loucura, ou verdade pessoal, essa aliás, que pode se difundir, e não mais estaria sozinho, se tornaria uma verdade grupal, uma crença, e por que não, uma religião (quantas seitas religiosas que pregam as coisas mais absurdas, e no entanto, são acatadas por inúmeras pessoas). Tudo movido pela fé, pelo acreditar em algo baseado na sua estrutura interna. Uma outra semelhança religião (igreja)/ciência é a de que a primeira comandava a vida social das pessoas em sua época, determinavam sua rotina diária, seus costumes, seu modo de vida, etc; e a segunda de forma menos descarada também direciona a sociedade de hoje através de seus estudos e pesquisas.
Afinal de contas, as verdades de hoje poderiam sofrer os “enganos” ingênuos tais como seus antepassados? Perfeitamente. Assim como no passado, o que é considerado verdade agora pode ser outras no futuro. Com isso não digo que o que há é uma verdade mutável – mesmo porque não há como conceber uma verdade que mude; o conceito de verdade não admite mudanças. Acredito que a verdade é relativa (por mais estranho que isso possa soar); ela não muda, ela é substituída por uma outra, depende de outros fatores para ser considerada verdade naquela situação. A verdade depende do contexto histórico, dos seus interesses, dos meios de comunicação, da aceitação sociedade, da tecnologia. Além disso, não há somente uma verdade, e sim vários tipos de verdades: verdades suas, verdades de outros, verdades tidas como científicas, verdades grupais…Acho que por mais que haja conceitos mais do que definidos, axiomas, em algum momento isso pode vir a cair por terra com a utilização de novos recursos, assim como as antigas teorias. Agora, se eles serão devidamente divulgados para toda a humanidade para se tornar uma verdade universal na sociedade que todos saibam e não contestem, aí é outra questão. Tal como hoje, deve haver tantas descobertas científicas, as tais verdades, e que no entanto, não tenho conhecimento. E nem por isso deixo de ter algo que considero como verdade a respeito do mesmo assunto, já que a verdade científica não me é mostrada.
A fórmula da água é uma questão engraçada: todos sabem qual é a fórmula da água, e no entanto, o que li no artigo, é que a fórmula não é mais aquela que eu tinha aprendido. Entra em cena então a minha credulidade no artigo e na experiência feita da água, para então poder aceitar como uma verdade. Mas e as outras pessoas que não leram o artigo, a água é a velha água de antes. Portanto a verdade sobre a água não seria tão verdadeira já que poucas pessoas sabem de tal fato. No entanto, é de se questionar: por alguns attosegundos a água não é mais água. Pois, por um instante, ou menos do que isso, a água que eu conhecia não é mais a mesma. Só por um menos de um instante, no resto do tempo ela continua sendo água. Sinceramente, a verdade é que isso serviria pra mim somente como mais uma curiosidade para uma conversa no bar. Ou seja, posso até acreditar nessa verdade, mas somente por alguns attosegundos.